A China estabeleceu as condições para as próximas negociações sobre inteligência artificial com os Estados Unidos, adotando um tom combativo ao mesmo tempo que acusava a empresa americana de IA Anthropic de má conduta, informou o Los Angeles Times, citando um relatório da Bloomberg.
Num post de domingo no Yuyuantantian, uma conta de mídia social afiliada à emissora estatal chinesa CCTV que é frequentemente usada para sinalizar o pensamento político oficial, Pequim disse que os EUA devem provar que suas empresas de IA estão sujeitas às mesmas regras de segurança, divulgação e auditoria antes que quaisquer discussões “substantivas” com a China possam ocorrer. Para mais contexto sobre esta história, confira nossa cobertura da indústria de IA.
O que Pequim exige antes das negociações
“Deve ser feita uma distinção clara entre ameaças genuínas à segurança e mera competição tecnológica”, dizia o post. "Esta linha deve ser traçada em conjunto por todas as partes participantes."
A postagem de Yuyuantantian, intitulada "Anthropic Has Contracted the American Disease", argumentou que o governo dos EUA deveria proteger as fronteiras de segurança em torno da IA, mas "recuou repetidamente" de fazê-lo. Também enquadrou as negociações em termos geopolíticos: “O ‘controlo’ proposto pelos EUA é, em essência, uma tentativa de fazer a China aceitar uma ordem parcialmente definida pelas empresas americanas”.
As acusações específicas contra Claude da Anthropic
A postagem destacou Claude da Anthropic para críticas, acusando o modelo de ultrapassar os limites dos dados do usuário, engajar-se em monitoramento secreto e transmitir domínios de sites sem autorização. “O problema é que os próprios modelos de fronteiras dos EUA já se desenvolveram numa direção distorcida”, dizia o post, acrescentando que os EUA estão “tentando transformar as ‘fronteiras de segurança’ que traçaram em regras padrão para o mundo inteiro”.
A Anthropic não respondeu imediatamente aos pedidos de comentários enviados fora do horário comercial dos EUA, nem o Departamento de Estado dos EUA, de acordo com o relatório.
Momento: Conversas antes da visita de Xi em 24 de setembro
A retórica chega em um momento delicado. Espera-se que autoridades dos EUA e da China mantenham conversações sobre IA antes da visita de Estado de Xi Jinping aos EUA, em 24 de setembro, para uma cimeira com o presidente Donald Trump. Nenhuma data foi anunciada para o diálogo sobre IA e as autoridades chinesas ainda procuravam clareza na agenda do mês passado, em parte para decidir quem enviar, informou a Bloomberg anteriormente.
A Reuters informou em Julho que os dois países planeavam realizar conversações sobre IA em Setembro, citando cinco pessoas familiarizadas com o assunto, enquanto ambos os governos lutam para saber como gerir os riscos colocados pelas capacidades de IA um do outro.
Um canal de mídia estatal fazendo trabalho político
A escolha do local é tão importante quanto a mensagem. Yuyuantantian não é uma conta comum de mídia social: é afiliada à emissora estatal chinesa CCTV e é frequentemente usada para divulgar ou sinalizar posições políticas oficiais antes de se tornarem declarações formais do governo. A cobertura internacional do post – incluindo o artigo da Geopolitechs sob o título “Anthropic Has Caught America’s Disease” – tratou-o como um sinal deliberado em vez de um comentário casual.
Essa leitura é reforçada pela linguagem do post sobre processo. Ao insistir que a linha entre “ameaças genuínas à segurança e mera competição tecnológica” “deve ser traçada conjuntamente por todas as partes participantes”, Pequim está efectivamente a rejeitar a premissa de que Washington – ou os laboratórios americanos de IA – podem definir unilateralmente o que conta como um risco de segurança da IA e exigir que a China cumpra essa definição.
Por que a Antrópica é o alvo de Pequim
A Anthropic ocupa uma posição singular no impasse entre IA e EUA. A empresa bloqueou os seus serviços de empresas controladas pela China no ano passado, alegando preocupações de segurança nacional dos EUA – embora isso não pareça ter efetivamente impedido as empresas chinesas de utilizarem os seus produtos. Junto com a OpenAI e o Google da Alphabet, a Anthropic expressou preocupação com o uso de seus modelos na China.
O atrito é tanto pessoal quanto comercial. A Anthropic acusou o Alibaba de acessar “ilicitamente” Claude usando milhares de contas fraudulentas, uma alegação que a gigante chinesa da tecnologia não respondeu publicamente. As autoridades chinesas, entretanto, estão cada vez mais ansiosas com a possibilidade de o modelo Mythos da Antrópico poder ser usado contra o seu país, informou a Bloomberg anteriormente. Eles vêem o potencial de modelos como o Mythos serem usados como uma arma ofensiva e questionam por que a Anthropic nega à China acesso aos sistemas para fins que Pequim considera normais.
O que isso significa para a diplomacia de segurança de IA
Os sinais de segunda-feira sugerem que Pequim quer entrar no diálogo a partir de uma posição de equivalência moral – argumentando que os laboratórios fronteiriços americanos precisam de tanto escrutínio como os chineses – e que o acesso a mercados e modelos será tratado como uma alavanca de negociação e não como uma nota de rodapé técnica.
Para os laboratórios fronteiriços, os riscos são concretos: a Anthropic não obtém receitas da China através da sua própria política, mas a disputa ameaça enredar as restrições comerciais à IA com a agenda mais ampla da cimeira EUA-China. As acusações da Anthropic contra o Alibaba e as contra-acusações de Pequim contra Claude estão agora na mesa diplomática semanas antes da reunião dos líderes. Se os negociadores conseguirem separar “ameaças genuínas à segurança” da “mera competição tecnológica”, como exige o posto de Yuyuantantian, poderá determinar se o diálogo de Setembro produzirá algo mais do que uma reafirmação de posições.
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